O Demônio do meio-dia: Uma Anatomia da Depressão – Andrew Solomon – Companhia das Letras 

The noonday demon: an atlas of depression,  Andrew Solomon,  2001

Esta edição : 2a edição,  4a reimpressão,  2015,  companhia das Letras.  Tradução de Myriam Campelo; epílogo acrescentado a esta edição  traduzido por Pedro Maia Soares. 

Cidade dos Etéreos – Ransom Riggs – Intrínseca Editora

 

Oi gente!

 

Este é o segundo volume da série ‘O Orfanato da Srta Peregrine para Crianças Peculiares’. A resenha do volume I está aqui.

‘Cidade dos Etéreos’ foi lançado pela Intrínseca numa bela edição em capa dura e além de uma entrevista com Ransom Riggs ,contém o primeiro capítulo do último volume da trilogia.

Ele começa sem saltos temporais, partindo exatamente de onde termina o primeiro volume.

No começo do livro achei que a narrativa seria monótona e que o autor não teria fôlego suficiente para três volumes interessantes mas de fato as personagens vão crescendo ao longo da narrativa, que se torna mais frenética e viciante do segundo terço do livro em diante.

O livro é tão mágico que quando você começa a questionar alguma coisa de repente a resposta aparece, de forma que o enredo vai ficando cada vez mais redondo (coisa de escritor que respeita a inteligência do leitor). A única parte meio chatinha é o romance adolescente do protagonista, mas é algo que de certa forma é esperado acontecer quando há muitos zóvens juntos, hehe.

As fotos tornam a história mais viva e a experiência do primeiro volume se repete, tanto que acabei comprando ‘Talking Pictures’ de tão apegada que fiquei às fotos. Em uma de minhas viagens vi uma exposição de fotos antigas incríveis, também garimpadas em lojas de antiguidade, sebos e outras feirinhas e acho interessantíssimo imaginar quem foram aquelas pessoas, como viviam e o que esperavam imortalizar.

O grupo de crianças peculiares passa por uma saga que se insinua em três séculos distintos, encontram novos peculiares, fazem novas alianças e descobrem mais sobre sua própria história. Após uma revelação inesperada, Ranson prepara os leitores para desejar com força o terceiro livro.

Acho que ‘Cidade dos Etéreos’ fez jus ao primeiro volume e certamente lerei o terceiro da série.

Beijos,

M.

O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares – Ransom Riggs – Editora Leya

Oi gente,

Antes de tudo gostaria de agradecer as visitas e falar que por tempo indeterminado só vou comentar os livros que ando lendo lá no Instagram ou no Twitter, ok? Ando muito sem tempo e vou manter o blog apenas pela intenção inicial, que é catalogar os livros da nossa Biblioteca.

O Orfanato da Srta. Peregrine é o primeiro livro de Ransom Riggs, um jovem e promissor escritor americano que também é blogueiro, repórter fotográfico e colecionador de fotos antigas. O segundo livro da série, Cidade dos Etéreos, também já foi editado em língua portuguesa e acredito que o terceiro já esteja no forno por aqui. Em setembro o filme dirigido por Tim Burton estará nos cinemas.

 

O filme fez algumas alterações bem importantes, juntando a personagem Emma com a personagem Olive. No trailer também senti falta do cabelo desgrenhado de Fiona. A imagem mental que fazemos das personagens no livro é… peculiar.

 

O método de escrita deste livro já vale a leitura. Ransom selecionou fotos antigas e autênticas de cerca de 10 colecionadores que passaram anos juntando preciosidades em brechós, sebos e feiras. Ele criou a história deste primeiro livro da trilogia totalmente inspirado nas imagens, basicamente não retocadas, deixando-as falarem por sim.

No início do século passado a Polônia se constituia na segunda maior comunidade judaica do mundo. Logo após a 1ª Guerra Mundial os judeus poloneses passaram a sofrer perseguições violentas e foram vítimas sistemáticas de pogromistas. A história do nosso protagonista Jacob começa neste cenário de crise pós-Guerra: quando seu avô polonês tinha cerca de 8 anos de idade foi levado por sua família para um Orfanato localizado em Cairnholm*, uma ilha do País de Gales onde supostamente estaria protegido de ataques nazistas.

Deflagrada a II Guerra, o então adolescente Abraham Portman alista-se no exército, luta contra os alemães e em razão da morte de seus pais, fixa-se nos EUA, onde constitui família. Nascido americano e de família materna rica, o garoto cresce ouvindo as histórias fantásticas do avô sobre o ambiente paradisíaco da ilha, sobre os poderes misteriosos das crianças peculiares e sobre a Srta Peregrine, tendo acesso inclusive a fotos que seu avô mantinha com carinho.

Já crescido, Jacob passa a desconfiar que a existência de um garoto invisível ou uma menina mais leve que o ar seriam meras criações do seu avô para diverti-lo, até que um evento traumático e aterrorizador põe em cheque seu ceticismo e após um longo tratamento psiquiátrico para transtorno de estresse pós-traumático ele decide visitar a ilha, investigar o passado do avô e obter respostas para o evento que presenciou.

A história é interessante e embora construída com pistas que leitores adultos desvendam antes do mistério ser solucionado por Jacob, a trauma é envolvente e a leitura extremamente agradável, sem altos e baixos, sem enrolação e com tudo se encaixando tão perfeitamente que até parece lógica a dicotomia da espécie humama entre e coerfolc e cripto-sapiens (ou a existência de fendas que permitem parar a evolução do tempo).

Por volta do meio do livro o mistério vai se diluindo e a história se transforma em uma aventura onde Jacob, que está com 16 anos de idade, claramente vai amadurecendo e ficando diante de responsabilidades que jamais imaginou.

O livro termina com gosto de quero mais, por isso ontem mesmo comecei a ler ‘Cidade dos Etéreos’. Como é comum em trilogias, no geral o primeiro livro é o mais interessante. Em ‘Cidade’ o autor fez o caminho inverso, deixou o texto falar por si e procurou fotos que se encaixassem nele.

Beijos,
M.

*A Ilha também é fictícia.

Serial Killers Anatomia do Mal – Harold Schechter – Dark Side Books

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Oi gente,

Harold Schechter é um professor de literatura e cultura americana que construiu seu nome como escritor produzindo obras de não-ficção sobre crimes verídicos.

As críticas negativas que tenho sobre o livro podem ser minimizadas por duas coisas: em primeiro lugar porque foi escrito há 13 anos e de lá para cá a neurociência melhorou bastante nosso aporte de conhecimento sobre o funcionamento cerebral, e em segundo lugar porque é obra de um escritor sem formação científica e sem conhecimento formal em saúde mental.

O problema é basicamente que, em alguns casos, o escritor claramente ‘força’ o leitor a correlacionar um evento da vida do serial killer ao seu sadismo extremo mesmo quando a ocorrência faz claramente parte do cortejo de reações adversas da vida. Todo mundo tem problemas, ou pelo menos tem alguns. Ah, fulano resolveu sair estuprando e estrangulando idosas, decapitando-as, masturbando-se por cima do seu cadavér e comendo seus restos mortais ao alho e óleo porque os pais se separaram e no seu íntimo ele nutre um ódio pela mãe. Menos, gente, menos. É claro que é basicamente certo que gatilhos ambientais são parte importantíssima na gênese de um serial killer, mas não vamos banalizar nem tentar escantear a genética a todo custo.

Tirando preciosismos técnicos, o livro é sensacional e me prendeu do começo ao fim. Interessantes os questionamentos e argumentações bem dignas de nota contra alguns mitos, como o de que homens brancos são maioria entre os serial killers no mundo, que o problema é mais grave nos EUA que em outros locais, que vídeogame e pornografia tornam as pessoas violentas ou outras inverdades como que não existe mulher serial killer.

Um outro problema não é especificamente deste livro e só vou citar nesta resenha porque já me incomoda há algum tempo. Nenhum dos livros para leigos que já li abordam com mais ênfase os conflitos de interesses que estão por trás das entrevistas que estes criminosos concedem a médicos, psicólogos e pesquisadores e também nunca vi descrição mais detalhada do conteúdo de anamnese complementar com familiares, com outras pessoas do círculo íntimo do criminoso ou antecedentes patológicos familiares bem construídos (não estou falando que entrevistas imparciais não são feitas ou são parciais de propósito, apenas que o diagnóstico diferencial não parece ser valorizado nem aparece muito claramente nestes livros). Excetuando-se registros verídicos de serviços sociais, médicos ou ações judiciais que comprovam que certos indivíduos foram abusados por familiares ou outros cuidadores, muito pouco deveria ser aproveitado como elemento de monta se a fonte da alegação é unicamente o serial killer. Eles são mestres em simulação e quando isso tudo se junta a um pesquisador que rejeita a biologia ou não pesquisa antecedentes familiares, o viés perfeito se cria.

Há histórias ‘de vida’ tão intensamente floridas que mesmo quem não tem uma certa experiência como pesquisador deveria ter um insight. Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias*. Histórias muito bizarras, em princípio, sugerem muito mais delírios persistentes, pseudologia fantástica ou simulação pura e simples. Repetindo: Serial Killer é um indivíduo mentiroso e manipulador, fora que pode criar histórias não só para tentar se safar mas também para se divertir com a empatia do examinador.

Neste livro também fica bem claro o quanto a Justiça ainda é muito benevolente com jovens cruéis com estupradores, e como Juízes soltam criminosos mesmo quando pareceres de médicos e psicólogos forenses são contrários. Parece haver uma impressão estatística de que um estuprador solto tende a voltar a estuprar com mais agressividade e principalmente escolhendo matar a vítima para não deixar testemunhas. Um estuprador é, basicamente, uma semente de serial killer. Busca por prazer sexual às custas de violência contra outro ou outros seres humanos e assassinato em série são coisas indissociáveis, outro ponto positivo deste livro que aborda bem esse assunto.

Bom lembrar que o escritor também cita a tríade maldita das crianças. Ela tem alta correlação com personalidade antissocial futura e os sintomas e sinais são: enurese noturna, piromania e violência contra animais. Crianças que demoram a controlar o esfincter urinário à noite, têm fascínio por queimar coisas e torturam animais merecem vigilância triplicada. Torturar animais não é brincadeira de criança, é uma espécie de treino para uma matança futura.

Além de vários estudos de caso, o livro traz uma boa bibliografia e listas de músicas, filmes e outras obras inspiradas nesse tema tão sombrio.

Um abraço,
M.

*Frase de Carl Sagan

[Catalogação da Nossa Biblioteca]
‘The serial killer files: the who, what, where, how and why of de world’s most terrifying murderers’
Harold Schechter, 2003, Balantine Books
Esta edição:
Tradução para o português por Lucas Magdiel, 2013, para Dark Side Books
Estante: Psiquiatria